A arte do deslocamento III – Na natureza selvagem.

Obviamente, não podemos afirmar que toda escolha “radical” é inteligente. De modo geral, afirma-se justamente o contrário: as escolhas mais ponderadas, nascidas da temperança, costumam ser as mais sintonizadas com um modo razoável de pensar.

Faz sentido, em parte e às vezes. Quer dizer, a opção feita por muitos que adotaram em suas vidas o modo de ser minimalista, apenas por exemplo, deve ter, em muitos casos, assustado aqueles em seu entorno próximo. Acontece muito. De modo que o que costumamos chamar de medidas drásticas, nem sempre significam tomar decisões erradas.

Se o modo de vida adotado por nós, consumidores contemporâneos, embora seja altamente destrutivo em relação ao futuro das outras gerações (insustentável é o termo preciso), é visto como o “normal”, e até aprovado pelo senso comum, pensar e agir de outro modo, mudar de paradigma, pode ser visto como uma escolha bastante radical.

Alguns levam estas escolhas ao extremo. São desbravadores, contestadores por natureza, inadequados ao modo de vida trivial. Sem dúvida, este foi o caso de um sujeito chamado Christopher McCandless (ou, posteriormente, Alexander Supertramp).

Deixando para trás diploma (formou-se, em 1990, em antropologia e história), família rica e bem estabelecida do Leste americano, carro e demais bens materiais, partiu para uma viagem (externa e internamente) na busca de um sentido maior para sua existência.

Into the Wild

Nas mãos do jornalista Jon Krakauer (outro sujeito bastante inquieto) – que já havia transformado sua história de sobrevivência a uma das maiores tragédias da história do alpinismo (Himalaia) no best-seller No Ar Rarefeito –, a história de Supertramp virou um trabalho de relativo sucesso intitulado Na Natureza Selvagem (Into the Wild, no original).

Cerca de dez anos após ter lido, se apaixonado pela história e de muita insistência junto à família de Supertramp, o ator e diretor Sean Penn conseguiu converter esta jornada radical em filme, que recebeu o mesmo título do livro.

O filme nos mostra a odisseia e a transformação na qual a personagem embarca após sua formação universitária – movido por questionamentos e profundas inquietações relacionadas ao status quo representado pelo modo de vida capitalista americano – em direção a regiões inóspitas (nos confins do Alasca), distante dos centros urbanos e de toda comodidade criada em seu entorno.

O verdadeiro McCandless – ou Supertramp.

Fortemente influenciado por narrativas de outros sujeitos inquietos (Tolstói, Thoreau, Jack London…), Christopher resolveu doar suas economias para instituições de caridade e pegar estrada (de início, a bordo de um velho carro, que não resistiu por muito tempo). Rebatizou-se com um nome qualquer, acompanhado de um sobrenome que homenageava sua banda preferida e jamais voltou à vida que havia deixado para trás.

Novamente, a jornada externa sendo o reflexo prático (na forma de ação) da necessidade de mudanças internas. A busca consciente pela saída de uma zona de conforto que já não preenche mais a existência com algum significado que sustente, de modo satisfatório, a maneira como vivemos.

Mais de 2 anos de estrada, 3 meses utilizando um ônibus velho como casa, vários amigos, rios perigosos atravessados em canoas, noites dormidas ao relento, alimentação precária ou equivocada, entre outras coisas, fazem de sua história algo a ser notado, independente dos desdobramentos gerados por sua aventura.

Grandes histórias nem sempre acabam como o esperado ou com finais felizes. Esta, ao menos, gerou um grande livro que, por sua vez, deu origem a um grande filme (cuja ótima trilha sonora, deixada a cargo de Eddie Vedder, merece destaque especial), ambos bastante recomendados, o que já é um grande feito.


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