A arte do deslocamento IV – A jornada do herói

Como já dito anteriormente, o deslocamento físico, de um ponto “a” para um ponto “b”, a que denominamos genericamente de viagem, pode ser visto também como uma forma de nos deslocarmos internamente de nossos eixos costumeiros.

Nosso cérebro tende a automatizar e mandar para um segundo plano as tarefas rotineiras e atividades habituais. De fato, grande parte de nossa evolução está relacionada a esta capacidade, caso contrário teríamos de lidar com uma quantidade de informação e processamento inimagináveis.

Alguns processos viram memória e são acionados quando deles necessitamos (por exemplo, lembrar todos os dias do caminho de casa ao trabalho) outros, como alguns estímulos visuais, são simplesmente incorporados e como que apagados de nosso processo cognitivo costumeiro (como um quadro, pendurado há anos na mesma parede, que parece ter desaparecido e voltado a vida quando algum visitante nos chama a atenção para ele, “-Nossa, que quadro bonito”, só daí percebemos que havíamos, de certo modo, nos tornado “cegos” para sua existência, mesmo passando a sua frente diariamente).

Para alguns, a viagem ou o tipo específico de deslocamento que aqui estamos chamando por este nome está, inextricavelmente ligada a nosso caminho evolutivo, a ponto mesmo de formar uma estrutura comum a todos seres humanos.

Foi o caso de Joseph Campbell (1904-1987), professor e uma das maiores autoridades no estudo da mitologia comparada, que por aqui ficou conhecido por meio da série-documental de relativo sucesso “O Poder do Mito” (originalmente lançada em 1988), que geraria um livro de mesmo nome.

Contudo, seu trabalho de maior repercussão mundial continua sendo “O Herói de Mil Faces” de 1949. Ali ele desenvolve sua teoria do “monomito”, que demonstra que diferentes culturas de diferentes épocas e localidades compartilham histórias ou lendas muito semelhantes, a que denominamos Mitos.

Para Campbell, inclusive, grande parte dos problemas modernos teriam como uma das causas o nosso afastamento destas narrativas fundamentais, rituais e práticas comuns que fariam papel regulador das práticas sociais.

“A função primária da mitologia e dos ritos de passagem sempre foi a de fornecer os símbolos que levam o espírito humano a avançar, opondo-se aquelas outras fantasias humanas constantes que tendem a levá-lo para trás.[…] Mantemo-nos ligados às imagens não exorcizadas da nossa infância, razão para a qual não nos inclinamos a fazer passagens necessárias para a vida adulta.”

Para ele, também, grande parte do poder destas narrativas e práticas teriam perdido sua força reguladora e transformadora no momento em que foram institucionalizadas (religiões), passando a ser historicamente associadas a formas de controle de alguns poucos sobre muitos.

Assim, os mitos que nos serviam, muitas vezes, como guias éticos, com suas histórias de cunho simbólico (daí sua universalidade) passam a ser confundidos com história prática e instrumento de poder.

Mas, sua teoria do “monomito” nos diz que existe uma estrutura simbólica, compartilhada por todos humanos denominada “Jornada do Herói”, um arquétipo fundamental com partes distintas.

Grosso modo, toda jornada se inicia com uma partida, a decisão de nos deslocarmos, de sair de onde estamos (que alguns chamariam de zona de conforto), há um desenvolvimento, onde nos defrontamos com o desconhecido, o inusual, que nos obriga a adquirir novos conhecimentos ou superar nossos medos e, por fim o retorno, que não precisa ser (de fato, não deveria ser) para o ponto zero do início da jornada.

A bem da verdade, após uma jornada bem vivida e acompanhando o pensamento de sábio Heráclito, o ponto zero sequer permaneceria existente, já que tanto nós, como ele (o ponto zero) terá sofrido transformações inexoráveis.

Como arquétipo, isto pode ser vivido por meio de uma longa viagem num período sabático, quanto num desafio cotidiano no espaço de apenas um dia. Sua importância, portanto, não reside no tempo de sua duração ou na distância física percorrida, mas em seu fornecimento de uma estrutura que já foi compartilhada por outros viajantes anteriormente. Uma espécie de mapa simplificado (no sentido positivo do termo) que nos ajudaria a entender processos presentes em nossas vidas.

Saber que, ao se partir em direção ao desconhecido, dificuldades surgirão, novas qualidades e aptidões deverão ser incorporadas (nem sempre de modo tranquilo, claro) e que, ao final do trajeto (onde, provavelmente iniciaremos outro), já não seremos os mesmos que iniciaram a trilha, pode ser de utilidade para diversos momentos de nossas vidas.

Em seu “Herói de Mil Faces”, Campbell mostra como esta estrutura, que é subdividida em outras, se apresenta na história de diversas culturas pelo mundo.

Desde histórias contadas por anciões aos mais jovens, ao redor de uma fogueira, até uma superprodução hollywoodiana como Star Wars, influenciada diretamente pela obra de Campbell, que serviria de consultor daquele que viria a ser um grande amigo, o diretor da saga, George Lucas.

De certo modo, aí nas representações subjetivas que podemos chamar genericamente de produções artísticas, ainda estariam presentes, conscientemente, estas estruturas básicas. Mais especificamente, nas de caráter narrativo (literatura, cinema) e, em alguns casos, serem capazes mesmo de nos servir de guia em nossos processos de transformação, nos apresentando exemplos de superação que podem, eventualmente, nos ajudar em nossas jornadas pessoais.

“(…) se alguém assumir por si mesmo a tarefa de fazer a perigosa jornada na escuridão, por meio da descida, intencional ou involuntária, aos tortuosos caminhos do seu próprio labirinto espiritual, logo se verá numa paisagem de figuras simbólicas (…) trata-se do processo de dissolução, transcendência ou transmutação das imagens infantis do nosso passado pessoal. Em nossos sonhos, os perigos, gárgulas, provações, auxiliares secretos e guias ainda são encontrados à noite; e podemos ver refletidos, em suas formas, não apenas todo o quadro da nossa presente situação, como também a indicação daquilo que devemos fazer para ser salvos” – Joseph Campbell – O Herói de Mil Faces.


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