Como aprender a viver com o suficiente

Como aprender a viver com o suficiente pode nos ajudar a viver melhor.

Uma das premissas básicas do minimalismo é a de que devemos aprender a viver com o suficiente. Afirmação aparentemente simples, mas que precisa ser examinada de modo correto para que possa nos mostrar seu verdadeiro poder de transformação.

Suficiente (Do Latim SUFFICERE, “bastar, completar”) nos remete a ideia de termos ou fazermos o bastante, o que é satisfatório, o justo, etc. Não mais, mas também não menos. Não o excesso, muito menos a falta. Trata-se então de uma medida que, do ponto de vista minimalista, adquire importância crucial em nossas vidas.

Qual a medida do suficiente?

Medidas são sempre parâmetros de comparação. Você tem uma trena ou régua, por exemplo, nesta existem marcações estipuladas através de acordos, predefinições (centímetros, polegadas, etc.) e, a partir da comparação com estas definições, extrai afirmações do tipo: “esta mesa onde se encontra meu computador mede 80x80cm”. Qualquer um com uma régua baseada nestas mesmas definições, poderá comprovar minha afirmação.

Mas, e se estivéssemos falando de medidas e comparações onde cada um possui uma régua diferente com marcações definidas por nós mesmos? Tarefa não muito simples de empreender, porque o “suficiente” aqui, de fato, é um parâmetro pessoal.

Não há uma régua, ou medida que apresente uma definição “universal” do que vem a ser suficiente, que sirva ao mesmo tempo para todos, ao menos não neste caso. Sem contar que não apenas nós, mas também nossas réguas pessoais sofrem alterações com o passar do tempo.

Não somos seres prontos, que nascem formados, um projeto fechado. Mudamos, nossos anseios e necessidades mudam também.

Contudo, esta característica inata (a de sermos seres mutáveis) pode justamente ser o que precisamos para definir novas práticas em nossas vidas. Já que a proposta do minimalismo é, a rigor, uma proposta de mudança.

Sim, e esta só é colocada em prática por quem está incomodado de algum modo, seja por insatisfação pessoal (inclusive com a preocupação em relação a que mundo deixaremos para nossos descendentes), seja porque, por algum motivo, deseja sair daquilo que costumamos chamar de “zona de conforto”.

Lembrando que o termo não se refere apenas a um local onde está tudo bem, muitas zonas de conforto são desagradáveis e só são confortáveis no sentido de que não desejo, ou sinto que não posso sair dali. Seja por que prefiro não me colocar em movimento, seja por temer a mudança que pode me trazer o diferente do que estou acostumado.

A insatisfação pode ser um sinal

Normalmente, a acomodação a estas situações insatisfatórias vem acompanhada de hábitos compensatórios como abuso de remédios, comportamentos destrutivos em geral, consumo excessivo, entre outros. A insatisfação e seus sinais podem justamente nos servir como um instrumento indicativo da necessidade de mudanças.

A ideia de que a abundância de bens ou mesmo de poder sobre os outros nos garante satisfação permanente, não resiste a uma análise mais demorada realizada por qualquer indivíduo dotado de bom senso.

Obviamente, não podemos deixar de lembrar, principalmente num mundo tão cruelmente desigual como o nosso, que o seu oposto, a escassez, a falta (também do Latim, CARENS – aquele que tem falta de algo e de CARERE – necessitar, precisar de) é um problema mais incômodo e complexo.

Sem excesso, mas sem falta

De modo que, suficiente não é excesso nem falta, mas refere-se a ambos. Não é uma medida absoluta, universal ou imutável, o que não quer dizer que não exista ou possa ser aplicada.

A análise e a reflexão feitas sobre nossas vidas, a partir de sinais pessoais ou mesmo em relação à preocupações sociais, econômicas e ambientais (o consumo excessivo está na base de tudo isso) é uma prática cada vez mais necessária.

Viver com o suficiente que, como afirmamos, é questão central para o minimalismo, diz respeito a questionar hábitos do passado, se desprender de coisas no presente, reformular atitudes e pensamentos (nosso mindset) para mudar o futuro e não se ver preso em um círculo vicioso:

…consumimos, obtemos satisfação momentânea, (como dito, mudamos, então muitas coisas que nos satisfaziam perdem a utilidade, ou mesmo o significado que em outro momento tiveram em nossas vidas, caso não sejam coisas vivas que também se renovem com o tempo), destralhamos, sentimos o espaço como uma falta, consumimos de novo guiados por desejos de satisfação que sequer são nossos, mas sim impostos externamente e que nos empurram na direção contrária…

Trata-se de um exercício, contínuo, de estar atento a nossa própria vida, verificar onde se mostram sinais incômodos de desequilíbrio, internos e externos, já que estes comportamentos afetam a vida inclusive do planeta.

Uma mudança interna que deve ser acompanhada de atitudes de modo a uma retroagir sobre a outra. Simplificamos a vida e esta simplificação nos move a querer usufruir de coisas que muitas vezes não estão à venda. Abre espaço para observarmos aquilo que, de fato, é ou não significativo em nosso viver e, assim, viver de modo mais pleno.

É mais um exercício de se manter à vista o que queremos que permaneça, do que prestar atenção ao que ainda não temos.

De modo que, viver com o suficiente é não só uma atitude interna/externa desejável, como também necessária a saúde pessoal e planetária. Há sinais claros disso, basta observarmos nosso entorno. Muitos que saíram da condição de busca básica pela sobrevivência já começam a perceber esta necessidade. É um bom começo.

Caso se interesse em prosseguir e aprofundar esta e outras reflexões, sugiro uma visita ao canal Mente Minimalista, onde encontrará bastante material interessante sobre este e outros assuntos.

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