Doomscrolling: más notícias demais.

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É bastante provável imaginar que num futuro não muito distante a época em que vivemos será vista como revolucionária, assim como foram as chamadas “Revoluções Industriais”. Algo como “Revolução Digital ou Informacional”.

Claro, o que chamamos de “revolução” na verdade representa apenas o ápice de longos processos de mudanças tecnológicas, que acabam por causar impactos profundos em diversas áreas da existência humana.

O que aqui chamamos de revolução digital é algo, do ponto de vista histórico, bastante recente e presente em nossas vidas, seja nos meios de produção de bens e serviços e na maneira como cada um de nós está envolvido nisto (o mundo do trabalho), seja nas profundas alterações comportamentais e culturais atuais.

Neste exato momento, por conta de uma pandemia global, certos processos e aspectos ligados a estas transformações que já vinham aflorando se intensificaram e aceleraram ainda mais a já vertiginosa velocidade de mudanças características destes momentos de transformação.

Na tentativa de darmos conta de tais acelerações ou mudanças profundas no comportamento, tentamos muitas vezes sintetizar em palavras nossas angústias e assim seguirmos nossas vidas.

Tudo isto intensificado por uma anomalia (a pandemia acima apontada) que nos mantém, falando de modo geral, fechados em nossas casas, convivendo com medos, ansiedades, incertezas em relação ao futuro, etc.

É natural, portanto, que num momento assim, nos utilizemos de todos meios disponíveis na busca por informações que, de algum modo, nos tranquilize e nos ajude a entender o que acontece e o confinamento intensificou de maneira notável e irreversível a utilização massiva da internet.

Mas, o que se observa muitas vezes é justamente o efeito contrário ao desejado. Quer dizer, ficamos ainda mais ansiosos por conta da gigantesca massa de informações disponíveis, muitas vezes contraditórias e inflacionadas, que se apresentam à nossa disposição.

Doomscrolling

Parece natural também que, num momento como este, grande parte das notícias vinculadas não sejam exatamente agradáveis.

Mas, se por um lado, nossa busca por informações reflete mecanismos subjetivos de necessidade de segurança, ou seja, entendemos que quanto mais soubermos sobre um determinado problema mais aptos a nos defender de seus efeitos nós estaremos, por outro, esta busca pode, em si mesma, transformar-se num problema maior ainda.

O termo “doomscrolling” (também se utiliza “doomsurfing”), ou “rolagem da desgraça”, ou ainda “rolagem do juízo final”, se refere à compulsão por ficar atrelado a timeline de nossas redes ou mesmo na internet em geral, ligados na enorme quantidade de notícias desagradáveis, o que gera a descarga de hormônios que, em excesso, nos causam diversos males. Ficamos, por assim dizer, hiperexpostos a uma enxurrada de notícias ruins e a elas nos ligamos emocionalmente.

O termo parece ter sido cunhado por um colunista de tecnologia, em 2018, e já é, inclusive, listado em alguns dicionários (o Merriam-Webster, por exemplo) entre as palavras criadas a partir do advento do Coronavírus.

Já está demonstrado, por meio de testes e estudos realizados recentemente durante a pandemia, a correlação entre a acentuação de casos de depressão e ansiedade (entre outros males) e a exposição desmedida notícias relacionadas a este problema.

Vejam, não se trata de afirmar que não devemos nos manter informados, ao contrário: a falta de informação ou a ignorância em relação aos seus conteúdos, têm nitidamente agravado o problema. Novamente, estamos nos referindo aos excessos de uma prática que, de outro modo, seria bem salutar. Falamos de compulsão.

O que, a princípio, era a necessidade de informação sobre uma anomalia assustadora (uma atitude positiva e aconselhável), em relação a qual mal sabíamos alguma coisa e buscávamos informações seguras que nos aliviassem, num outro momento, isto acaba por, imperceptivelmente, se transformar em hábito.

Em partes, o problema tem como causa os próprios meios onde as informações são veiculadas, os média (ou mídia no uso comum), que no mundo digital necessitam de abastecimento constante de conteúdo (ainda que nada de muito significativo tenha se alterado durante o dia) e aos algoritmos que regulam este abastecimento.

De modo bem diluído, podemos afirmar que uma notícia boa gera um “relaxamento” em nosso sistema de compensação, ao passo que notícias “ruins” nos colocam e mantém em estado de alerta e preocupação constantes, gerando assim mais engajamento (atenção) na busca por obter informações que nos protejam e diminuam a tensão causada.

Os algoritmos, alimentados por esta demanda e programados para perpetuarem assuntos que geraram maior engajamento, acabam por reforçar e retroalimentar este ciclo.

Tudo é hábito

Como a grande maioria de nossos problemas, é inevitável que sua resolução ou ao menos sua redução a uma escala menos danosa passe pela conscientização em relação ao mesmo.

Notar que já se informou sobre um determinado assunto e ainda assim insiste em se expor à repetição da informação dezenas de vezes pode ser um sinal de alerta. Portanto, estar atento e estabelecer limites já é um bom começo.

Em alguns casos, é mesmo necessária a adoção de limitações de tempo ao qual nos expomos a esta enxurrada de notícias, pois, quando envolvidos neste fluxo emocional, a tendência é perdermos mesmo a noção de tempo.

Este tipo de comportamento problemático nos mantém em constante estado de alerta e tensão, de modo que a auto-observação de nosso estado mental e emocional também é bem-vinda. Desde que esta, claro, não se transforme também em outra camada de preocupação.

Evitar começar ou terminar o dia com uma “checada rápida” nas redes ou sites de notícia, também está provado, é prática que evita muitos problemas.

A demanda é muito grande e, como já comentamos neste espaço, bem maior do que a nossa capacidade de processamento cognitivo atual. Falta-nos uma narrativa única, sintética, que dê conta de um momento tão raro como este.

Então, entender que algumas lacunas ou dúvidas ficarão em suspenso momentaneamente, aguardando por novos fatores que as moldem e nos conduzam a novos entendimentos, é uma tarefa difícil, porém necessária.

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