Fotografia Miksang: descondicionando o olhar.

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“Quando tudo tiver encontrado uma ordem e um lugar em minha mente, começarei a não achar nada digno de nota, a não ver mais o que estou vendo. Porque VER quer dizer perceber diferenças, e, tão logo as diferenças se uniformizam no cotidiano previsível, o olhar passa a escorrer numa superfície lisa e sem ranhuras”

Italo Calvino – Coleção de areia

Graças ao advento da Internet, vivemos já há algum tempo mergulhados num mundo onde as imagens se tornaram, possivelmente, o maior mediador entre as pessoas.

Grande parte de nossas interações (redes sociais, memes, fotos de comida, da família, vídeos diversos…) são mediadas por imagens. Cada vez mais trocamos textos longos e reflexivos pela (suposta) imediaticidade das imagens.

Contudo, pensando a partir de Calvino, parece que ficamos cegos para aquilo a que nos expomos com demasiada frequência. Sim, é uma tendência inclusive de nosso processamento cognitivo (o modo como digerimos, por assim dizer, as informações vindas do entorno) automatizar tudo que for possível.

Então acordamos, tomamos café, pegamos o metrô… tudo em modo automático, pensando na conta bancária, ou numa outra vida que não a que vivemos.

Uma crise do olhar

Uma reclamação que costumo escutar muito dos alunos nos cursos de fotografia é: “ -Não encontrei nada de interessante para fotografar”. O argumento é: se não estiver em viagem a um lugar fantástico ou participando de algum evento grandioso, não há o que registrar. Argumento estranho, porque muitas vezes parte de pessoas que registram (e postam) absolutamente tudo.

Mas será que a hiperexposição (e a velocidade em que esta se dá) às imagens não está nos tornando também um pouco anestesiados em relação ao nosso entorno no momento em que as registramos com nossas câmeras ou as apreciamos? Pode o ato fotográfico se tornar ferramenta que possibilite nosso reencontro com as pequenas maravilhas cotidianas?

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Wikimedia Commons

Miksang?

Chógyam Trungpa Rinpoché foi um Lama tibetano, nascido em 1939. Aos 20 anos de idade, devido a invasão chinesa, teve de deixar seu país. Mais à frente, desenvolveu técnicas para passar os ensinamentos budistas em meio à cultura ocidental, especialmente através de práticas artísticas. Assim ele criou os conceitos básicos do que viria a ser definido como fotografia contemplativa, desenvolvida e difundida posteriormente por seus discípulos.

Podemos dizer que Miksang (em tibetano “Olho Bom”) é uma modalidade de fotografia que nos pede para ver o mundo de uma nova maneira. Conhecida também como Fotografia Contemplativa, Meditativa ou até Fotografia Minimalista, sua prática pressupõe um tipo de relação visual com o mundo, diferente da que costumamos ter cotidianamente.

Sua intenção não é exatamente produzir uma foto impressionante, mas sim, ser um caminho para o retorno da contemplação sensorial do mundo. Ou, dizendo de outro modo, calarmos nossas mentes barulhentas com seu diálogo interno ininterrupto e prestar atenção aos sentidos. Trata-se de um fazer e não de um resultado.

Isto implica em nos colocarmos em estado de quietude mental, tentar eliminar, ao menos temporariamente, nossos julgamentos “racionais”(-Isto é interessante pra se fotografar?), nossas inseguranças (-Será que terei muitas curtidas? Esta imagem é boa o suficiente para os outros?). Simples?

Outros modos de ver.

Como já dito aqui em outro momento e sobre outras práticas, trata-se de um modo de agir no mundo que implica outro paradigma de pensamento.

Já foi feita a comparação entre um fotógrafo é alguns tipos de caçador: ambos estão procurando algo, munidos cada um com seus aparatos e olhar atento, estão a procura de uma presa, um “momento decisivo” que será depois exposto como uma espécie de troféu.

Mas, e se silenciarmos nossas mentes o suficiente para que o mundo volte a nos impressionar em suas minúcias, como vemos com frequência acontecendo com crianças, por vezes capazes de se emocionar com uma folha seca alaranjada caída de uma árvore?

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Wikimedia Commons

Existem técnicas para desenvolver este olhar, mas sua exposição extrapolaria nosso espaço aqui. Ainda assim, creio que:

  • Nos treinar a registrar visualmente (com ou sem uma câmera na mão) o que não estamos acostumados, quer dizer, olhar para onde não costumamos olhar.
  • Bem como nos habituar a olhar de modo distinto para o que nos acostumamos a ver com certa frequência, podem ser um bom começo.

Silencie a mente, respire fundo, refresque o olhar. Observe o entorno com calma, as cores e suas relações, as texturas, linhas. Abra-se à experiência.

Você pode encontrar mais informações aqui e também aqui.

Jc Ruzza é artista multimídia, Bacharel em Filosofia, Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e gosta mais de perguntas do que de respostas.

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