Livros servem para serem lidos.

Livros, desde sempre, são objetos associados à ideia de sabedoria, conhecimento e, para alguns, status. Vide a recente mania muito observada em lives e videoconferências: utilização de estantes (muitas vezes falsas ou virtuais) lotadas de livros como imagem de fundo para estas ocasiões.

– Agrega um valor simbólico” foi a resposta que ouvi ao questionar um amigo que sei não ser lá muito adepto da leitura destes objetos de papel (ou mesmo virtuais), mas que utiliza este tipo de imagem em conversas online com possíveis futuros clientes.

Sim, em alguns meios, a erudição associada a posse de uma biblioteca razoável é considerada um valor em si. Sinal de inteligência, inclusive.

Estes “objetos”, nos fundos falsos, não contêm em si sabedoria alguma, já que nem sequer podem ser lidos. Ou seja, perderam sua principal razão de ser: perpetuar um conteúdo para que seja passado adiante.

Outro hábito deste amigo acima é, em sua estante verdadeira, acumular livros e mais livros que sequer foram retirados de suas embalagens plásticas. Em seu caso, tem a ver com o fato de trabalhar junto ao mercado editorial e recebê-los como brinde ou acessório ao cumprimento de sua função, vendê-los.

Mas, também existem aqueles que, mesmo distantes de suas necessidades profissionais ou qualquer outro argumento plausível, simplesmente acumulam, sem ler, estes objetos fascinantes.

Tsundoku

Sim, existe na língua japonesa um termo para definir este hábito: Tsundoku.

Segundo Andrew Gerstle, professor de literatura japonesa pré-moderna, na University of London, o termo não é recente, e já foi encontrado na imprensa do ano de 1879, fato que indica grande probabilidade de já ter sido usado antes de modo comum.

De acordo com Gerstle, trata-se de uma junção da palavra “doku”, que pode ser usada como o verbo “ler” em nossa língua e o termo “tsun”, derivado de “tsumu”, cujo significado está próximo do nosso “empilhar”. Ou seja, temos Tsundoku como algo semelhante a empilhar, ou acumular livros.

Ainda segundo Andrew, o registro do termo na data acima é feito com intenção satírica, já que se trata de uma referência a um professor que tem o hábito de acumular livros sem lê-los.

Não se trata, contudo, de um comentário crítico ou pejorativo, mas uma simples constatação: algumas pessoas compram livros e os empilham, e não os utilizam para seu propósito básico, a saber, serem lidos.

Especulando, diria que, na maioria destes casos a justificativa seria “me falta tempo”. Esta, por sua vez, seria um dos principais argumentos para deixarmos de fazer algo que importa para nós, por conta de termos de fazer algo necessário à nossa sobrevivência, nossas ditas “obrigações”.

De fato, ao buscar possíveis respostas, ouvi desde o comum “um dia vou me aposentar e ler todos estes clássicos”, a o “adoro livros, o cheiro a textura… mas ando muito ocupado”. Tempo.

Acumular, acumular…

A acumulação na forma de mania não é exclusiva, claro, da relação de alguns com o objeto “livro” e, não necessariamente, tomada em nossa sociedade como uma patologia. Obviamente, não estamos aqui falando dos colecionadores e suas motivações.

Particularmente, eu, leitor compulsivo, tendo a observar com certa pena livros empilhados, muitas vezes, como já dito acima, sequer extraídos de suas embalagens plásticas. Não consigo deixar de pensar em pássaros, cuja principal característica existencial seria “voar”, presos, engaiolados.

Atualizando um pouco o termo, observarmos a quantidade de e-books, mp4, links salvos nos favoritos para vermos posteriormente, que exemplifica a impossibilidade de acompanharmos a oferta contemporânea de “informações” que nos são impostas.

Afinal, tudo nos é apresentado como sendo de tão fundamental importância que, para prosseguirmos na vida, aquele conteúdo não pode deixar de ser visto… quando houver tempo, claro.

Irônica constatação: justamente a digitalização destes conteúdos físicos, ao menos em tese, levaria aqueles que entendem os livros físicos apenas como um suporte de informações a se desapegarem dos mesmos, na forma, por exemplo, de doação à alguma biblioteca.

Prática que julgo não só saudável mas bastante útil, em se tratando de uma realidade como a nossa, onde livros, muitas vezes são objetos economicamente inacessíveis a muitos.

Quero dizer: se você tem uma destas estantes não virtuais, carregadas destes objetos portadores de conhecimento tão importantes a nós humanos e não os lê, uma boa e recomendável prática seria passá-los adiante.

Liberar espaço físico com o “efeito colateral” positivo de promover o acesso a obras que muitas vezes não chegariam a outros menos privilegiados. Se os livros fossem seres, agradeceriam, creio.

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