Ma: o espaço cheio de significado.

espaço Ma

Já falamos aqui e em outros momentos sobre a dificuldade em traduzir termos típicos de outras culturas ou línguas para a nossa (que, em si, já é bem heterogênea). Também já tentamos apontar algumas diferenças entre o tipo de pensamento que nos acostumamos a chamar de “oriental” daquele que identificamos como “ocidental”.

É uma separação muito mais didática do que factual, já que sabemos que estas divisões, na realidade, não se mostram tão claramente distintas. Aquilo que identificamos como pensamento (e prática) “Oriental” é apenas um recorte feito num todo cultural muito mais complexo.

Ainda que didática, esta separação pode gerar reflexões interessantes (que é nosso principal objetivo neste espaço) e mostrar que existem modos de pensar com características essencialmente distintas dos “nossos” e que podem, por contraste, levantar questionamentos importantes.

Ideias que são incorporadas naturalmente ao cotidiano de uma cultura podem, muitas vezes, parecerem exóticas ou mesmo incompreensíveis para outros, gerando um interessante e bem-vindo curto-circuito em nossos automatismos.

Pensar de outro modo.

Um bom exemplo disso pode ser o termo japonês Ma. Embora não exista uma tradução literal para a palavra, ela é associada a diversos significados: espaço intermediário, espaço entre, pausa no tempo, vazio entre as coisas, etc.

Ideograma = grosso modo, é uma maneira de representar o mundo diferente do modo fonético que utilizamos (no ocidente em geral).

Tomemos, como exemplo, a palavra “pessoa” – sua forma, a forma como ela é escrita, não tem relação nenhuma com a forma de uma pessoa em si. É uma convenção que aprendemos e naturalizamos. Já, o ideograma (possivelmente de origem chinesa) deriva sempre da forma da coisa ou do fenômeno que ele representa. O ideograma que representa “pessoa”, é este, ““e deriva da imagem de uma pessoa em pé. O ideograma para “árvore””, deriva da forma de uma árvore (então, por extensão, o ideograma composto por duas árvores, “木木”, representaria bosque ou floresta) e assim por diante.

O ideograma para Ma (間 ), representa o Sol (日) visto através de um portal (門 ). Quer dizer, o espaço por onde se entrevê o Sol que está lá fora e por onde ele adentra o recinto ou ambiente.

Contudo, e apesar da aparente simplicidade, este ideograma exemplifica de modo exemplar como podem haver visões de mundo tão diferentes entre si. A começar pela imagem do portal ( 門 ).

Por uma série de motivos que veremos em outra oportunidade, o pensamento ocidental (vamos chamar aqui de “nosso”) não gosta muito de ideias relativas e de ambiguidades. Quer dizer, preferimos as coisas “preto no branco”, “é isso ou aquilo”. A ideia de que uma coisa pode ser “isso e aquilo”, ao mesmo tempo, não se encaixa muito bem neste modo de pensar. Uma coisa ou é ou não é, não pode ser outra coisa ao mesmo tempo.

Em parte, devemos isto aos gregos e, mais especificamente, a um sujeito de nome Aristóteles e ao seu esforço de fundamentar uma lógica que satisfizesse nosso anseio por verdades únicas e universais. Isto está na base do pensamento que chamamos de “científico”.

Mas, voltando ao Ma, se pensarmos bem, a que lugar pertencem realmente estes espaços representados por portais ou janelas? Estão dentro ou fora dos recintos? Uma porta que separa dois ambientes pertence a qual deles? A varanda de nossas casas pertence ao interior ou ao exterior? O mesmo serve para elementos de ligação, como pontes, por exemplo, e etc.

Um modo de tratar a questão é pensarmos estes como espaços intermediários, intervalares, por assim dizer. Para a cultura tradicional japonesa (falando, sempre, de modo generalizado), não são um nem outro, mas os dois ao mesmo tempo. As fronteiras, por exemplo, seriam vistas não como elementos de separação, mas sim de ligação, conjunção, transição entre duas instâncias.

Mas, a importância deste espaço e a diferença de concepção vai além. Estende-se da arquitetura às relações pessoais e as artes em geral.

A importância da relação

Em se tratando de uma cultura relacional (que enfatiza mais as relações entre os indivíduos e entre os indivíduos e o mundo, do que os indivíduos em si), o espaço “entre” é de fundamental importância. Observamos isto na própria maneira distanciada de se cumprimentar uns aos outros: o espaço mantido entre uma pessoa e outra ao se curvarem em reverência (assim como o espaço de tempo que é dado ao fim da reverência), não é visto como um espaço de distanciamento, de separação, mas um espaço de respeito mútuo, de encontro.

Vale notar que, se para “nós”, o espaço é muitas vezes visto apenas como a ausência de algo, para o pensamento tradicional japonês ou para o Ma, este espaço é vivo e fértil de potencialidades, quer dizer, aqui, até mesmo o vazio adquire um significado diferente.

É visto não apenas como um elemento de ligação, mas também como um local de possibilidades, cheio de significados e importância. É um vazio dinâmico onde algo pode acontecer, mais interessante do que um lugar já ocupado por algo fixo.

Nas artes, podemos observar isto na importância dos espaços “vazios” entre os elementos de uma composição plástica, mas também nos intervalos de tempo entre uma nota musical e outra (este existente na música em geral), no zen, etc.

Ou seja, temos um outro eixo de relação com o mundo, se quiserem, um outro paradigma. E, como nos esclarece Michiko Okano, professora e pesquisadora de História da Arte Asiática da Universidade Federal de São Paulo (cujo importante trabalho serve de base para o texto que estão lendo), sobre o Ma:

Trata-se da expressão de algo próximo de um senso comum peculiar dos japoneses: todos sabem o que é, mas não conseguem explicar com exatidão. É uma tarefa delicada, portanto, conceituar, de modo compreensível para o ocidente, uma noção que se manifesta, por exemplo, nas pausas da fala em uma conversa, considerando-se que, no âmbito ocidental, a lógica é regida pela dualidade “.

Não se trata, portanto, de um conceito, mas de uma experiência. Não de algo no campo do raciocínio lógico (mental), do pensamento linear, mas de uma relação sensorial (sentidos) com o entorno. Não tanto de uma atenção às coisas em si, mas da relação entre as coisas, do espaço que as separa, em suma, de um tipo específico de relação entre nós e o mundo.

Esta mudança de eixo está na base da dificuldade de compreensão de muitos outros termos ou práticas ligadas não só ao Japão, mas as culturas “orientais” em geral, tais como o zen e a meditação em sua ênfase na importância do “vazio”.

Esta “ênfase” nas “coisas” está, de muitos modos, ligada ao acúmulo das mesmas. Se a “coisa”, em si, é de importância central, tendemos a pensar que quanto mais coisas tivermos mais rica (em todos sentidos) será nossa existência. Talvez a observação dos espaços entre elas (como no feng-shui, por exemplo) contribuísse para uma mudança neste modo de pensar.

Neste sentido, tanto a observação dos espaços “vazios” de coisas, porém cheios de significado, quanto da ligação que construímos com estas coisas ao nosso redor, pode ser uma prática bastante transformadora. O “espaço”, para a psique japonesa, impacta diretamente o progresso do indivíduo. Esses princípios, quando aplicados de forma eficaz, aprimoram a maneira como pensamos e nos relacionamos com o ambiente como um todo.

Uma trilha, por exemplo, vista como coisa é apenas um traçado onde as plantas não crescem mais e a terra fica aparente entre as árvores e plantas. É só no aspecto relacional, quando alguém a percorre, que ela de fato passa a ser uma trilha. E, dependendo da qualidade desta relação, um espaço que, além de conectar um local a outro, passa a ser transformador e significativo se dermos a atenção devida ao ato de a atravessarmos.

Como dito acima, não é tarefa fácil tentar explicar ou conceituar o que, em si, não é um conceito. Ainda assim, para aqueles que desejarem um aprofundamento maior na questão, recomendo bastante o vídeo de palestra onde a Professora Michiko trata do assunto de modo claro e bem mais detalhado.

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