Natureza X Cultura – I

natureza X cultura

Um dos eixos temáticos principais tratados aqui neste espaço tem sido a maneira como nós humanos temos, de modo geral, nos relacionado com o planeta e com seus recursos, apontando este modo como problemático.

Seja via nosso consumo direto, descarte inadequado de produtos consumidos ou acúmulo desnecessário de coisas inúteis; seja pela exploração de recursos limitados para a produção destes próprios bens ou a maneira como a força de produção humana é injustamente explorada para que esta roda toda continue girando.

De um modo ou outro, estamos mantendo comportamentos em relação a isto tudo, ao que diversos sinais indicam, insatisfatórios ou mesmo irracionais.

Que mundo queremos?

Nos preocupamos, por exemplo e com razão, com qual tipo de formação e base profissional nossos descendentes terão. Exemplificando: queremos que nossos filhos estudem, que o façam nas melhores universidades, porque isto geraria uma colocação melhor no mercado de trabalho. Preocupação legítima, insisto.

Mas, ao mesmo tempo, e aqui estou generalizando, parece ser secundária, senão inexistente, a preocupação em que mundo viverão, respirando que tipo de oxigênio, bebendo água de que qualidade, vivendo em que ambiente, com qual qualidade de vida real lidarão.

Difícil trazer isto ao campo da reflexão, como tentamos aqui, sem concordar que é um tipo de pensamento, no mínimo, contraditório. As preocupações individuais parecem seguir numa trilha separada e independente do campo onde esta trilha se constrói, fundamenta, onde ela se dá, a saber, o planeta onde vivemos.

Mas, aos que concordam até aqui: como é que chegamos e convivemos com este tipo de contradição? Afinal, nos preocupamos ou não com o mundo que estamos deixando pra quem estará aqui depois que não estivermos mais – que é o motor da ideia do que costumamos chamar de sustentabilidade?

Uma das diversas chaves conceituais que temos para lidar com esta contradição ou, ao menos, tentar entender como levamos a vida apesar da presença desta, pode ser realizarmos um pequeno e bem resumido recuo.

Natureza x Cultura, um problema antigo.

É parte do pensamento clássico a distinção entre o que é referente à Natureza e o que vem a ser do âmbito do humano.

Grosso modo, quer dizer: de um lado, temos a Natureza (termo este, além de um tanto vago, criado por nós humanos, vale lembrar), que engloba meio ambiente, os animais e plantas, seres viventes que não o homem. De outro, o Humano, embora visto algumas vezes como algo que até faz parte da Natureza, participa de modo diferente: podemos até ser animais, afirmamos, mas somos de um tipo distinto, um tipo de animal que pensa.

Pois bem, nós, animais pensantes produzimos coisas, interferimos nisto que denominamos Natureza, no intuito de transformarmos nossa existência em algo mais viável e o fazemos a partir desta capacidade intrínseca de pensar. A rigor, Cultura.

Em sua origem, o termo Cultura se refere justamente a isso. O verbo latino colere, traduzido ao português como “trabalhar na terra”, remete-nos à ideia de intervirmos conscientemente no que é dado, natural. Justamente ao campo da produção humana.

A terra seria um “dado natural” e nós, humanos, interferimos nisso (a ciência do plantio, de cultivar a terra) de modo diferente de todos os outros animais. Faríamos isto por intermédio de ações, guiadas pelo pensamento.


Isto tem raízes no início do que chamamos de pensamento ocidental, mas se solidifica e afirma no longo período em que nos tornamos conscientes de que muitas coisas que acreditávamos terem causas divinas eram, na verdade, explicadas de modo natural: um trovão passa a ser uma descarga energética e não a expressão da raiva divina, pra ficarmos numa ilustração, um tanto quanto simplória.

Encurtando a linha histórica: passamos a absorver o mundo a partir de um ponto de vista onde a natureza e seus fenômenos são objetos a serem compreendidos, explicados por nossa razão e, a partir do seu entendimento, serem controlados por nós, animais superiores. Tornamo-nos senhores da natureza, por assim dizer.

A Natureza passa a ser algo a ser dominado, fonte de recursos a serem explorados para nossa sobrevivência ou mesmo comodidade.

Mais adiante, movidos por outras características não presentes no resto da natureza, passamos a explorá-la no intuito da obtenção de poder, lucro, ganância, entre outras coisas.

O ponto aqui é: creio impossível negar que esta separação radical, entre nós e o resto da natureza, uma espécie de alienação do mundo, não seja elemento fundamental da relação atual que temos com este meio, a ponto de destruí-lo, mesmo sabendo das consequências resultantes disso.

Vale lembrar que, algumas “culturas”, ainda existentes, embora quase extintas, ainda mantêm uma relação mais equânime em relação aos outros seres viventes. Para alguns povos indígenas, por exemplo, esta separação é absurda.

Veem-se como parte de um meio onde plantas, animais, rios (e tudo o que distinguimos como separados), formam um conjunto equilibrado ou não hierárquico, onde a interferência individual gera alteração no todo. Numa palavra, interdependência.

Quer dizer, percebem-se como parte integrante de um ecossistema do qual dependem, no qual se encontram interligados, inevitavelmente.

Independente da possível crítica idealista a este tipo de cosmovisão (a de serem selvagens ou ultrapassados, por exemplo), é algo que vem sendo resgatado e muito considerado ultimamente. Chegando ao ponto mesmo de se transformar em tendência, uma espécie de volta à vida mais conectada à natureza.

O que tentamos apontar aqui, nestas poucas linhas é, mais uma vez, a ideia de que devemos sempre estarmos atentos aos modos cristalizados de enxergar o mundo a nossa volta e da necessidade de investigar as origens de nossos pensamentos (que são a base ou raiz de nossos comportamentos) no intuito de desmontar paradigmas arraigados, naturalizados e que, por isto mesmo, podem estar nos levando a um abismo que não queremos, justamente por sequer termos consciência dos mesmos.

Não é um movimento recente, vem ganhando força. Mas a ideia de sermos senhores do mundo, apartados de todo resto, e de que a Natureza é algo dado, e a ser explorado infinitamente a nosso bel prazer, é um paradigma ainda muito resistente.

Ironicamente, demonstra ser bastante “irracional”, já que não é comum observarmos comportamentos análogos em outros seres viventes e não pensantes.

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