Nunca entramos no mesmo rio

rio de heráclito

Também conhecido como “o obscuro” ou “o enigmático”, Heráclito de Éfeso (por volta de 540 a 475 a.C.), é o responsável por um dos trechos mais emblemáticos (ao lado do “Só sei que nada sei”, frase atribuída a Sócrates) da história da Filosofia ocidental:

“Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou”.

Heráclito chamava, assim, nossa atenção para o que ele acreditava ser a característica primeira da realidade: a inexorável e constante mudança e transformação.

De modo que, a cada vez que entramos no rio usado em seu exemplo, este já não é o mesmo, já se transformou. O mesmo serve para o Ser, no caso nós, que também já haveríamos passado por várias transformações, de modos diversos e de diversas formas.

Grande influenciador do pensamento posterior, o que temos de fato registrado sobre seus ensinamentos são trechos na forma de compilação que registra um total de 130 fragmentos, é responsável também, junto a Parmênides de Eleia (por volta de 530 a.C.), por um dos mais antigos embates da história do pensamento humano: a questão mobilismo X monismo.

Panta Rhei, ou “tudo flui”

De modo bastante resumido, Heráclito seria defensor da ideia da mudança e do mundo como processo, como mutação; já Parmênides, defendia a unidade imutável (imobilismo) do ser, um monismo* absoluto (em que a mudança e a diversidade são ilusórias).

Importante salientar que, ambas, são concepções de mundo desenvolvidas há muitos séculos, questionáveis em muitos pontos e, de certo modo, até superadas quando tomadas de modo absoluto, mas que ainda nos influenciam muito, mesmo sem termos ciência disso.

Difícil atribuir autoria a textos tão antigos e é comum na história da filosofia clássica o conhecimento sendo passado adiante na forma de discursos e falas, registradas para a posteridade por alunos ou seguidores. Ainda assim, tanto a citação no início do texto, quanto a máxima Panta Rhei, traduzem muito bem, ainda que de modo muito sucinto, o que parece ser o pensamento heraclitiniano.

Como já dito, para Heráclito, tudo está em fluxo, e a realidade é caracterizada pelo conflito entre os opostos (algo não necessariamente negativo), mas que garantiria justamente o equilíbrio por meio da equivalência entre as oposições. Os opostos são, assim, complementares e não fazem sentido isoladamente, pois apenas em par pode-se ter uma síntese do que realmente representam: o movimento eterno que realiza o equilíbrio de todas as coisas.

Assim, dia e noite, frio e calor, vida e morte, seriam inseparáveis, pois há uma unidade na pluralidade. O movimento e a pluralidade seriam as características de nossa experiência de mundo. Um eterno devir.

De modo que, a título de exemplo, poderíamos dizer que, se para Heráclito, a luz e a escuridão formariam um par necessário, complementar e em constante choque e transformação, para Parmênides, a escuridão (um não-Ser, algo que não é) seria apenas a negação da luz (um Ser, algo que é) e as mudanças que parecem óbvias aos nossos sentidos, bastando para isso observarmos o mundo a nossa volta, seriam fruto de nossos sentidos “mentirosos”, confusos, enganosos mas superáveis por meio da aplicação lógica do pensamento racional.

Para Parmênides, que assim como outros pensadores buscava a essência da verdade sobre a vida, seria um absurdo crer no que nossos sentidos nos mostram pois, deste modo: com seria possível estabelecer verdades únicas e universais sobre uma base diversa e em transformação constante? Heráclito aponta como solução um nítido paradoxo: a única constante eterna e universal seria, justamente, a Mudança.

Impossível não encontrarmos paralelos aqui entre o pensamento que costumamos chamar de Oriental e até com o Budismo. Mas, ao que me consta, não havia ainda ligação geográfica entre os que desenvolviam este pensamento, nesta altura, já bem avançado no Oriente, vindo isto ocorrer só mais adiante.

A impermanência da coisas

Mas, a ideia da impermanência das coisas do mundo, e a paz advinda da aceitação de tal ideia é característica não só do pensamento antigo Oriental, mas também desenvolvida, de certo modo, por outras escolas de pensamento posteriores ao período onde Heráclito desenvolvia suas ideias ( vemos um pouco disto nos estoicos, por exemplo).

Não é um pensamento muito simples de aplicar à vida prática e contemporânea. Não que o mundo não nos pareça cada vez mais mutante e em acelerada transformação, mas o fato de que o desapego pode ser algo que pode produzir algum tipo de benefício.

E aqui já estamos falando de um tipo de desapego mais concreto mesmo. Agarramo-nos a pessoas, coisas, situações que, em diálogo com Heráclito, podemos reconhecer como inexoravelmente mutantes. Nossos gostos, comportamentos, as pessoas que fazem parte de nossas vidas, assim como o rio acima, e nós mesmos, estamos em constante (e, muitas vezes, conflituosa) mudança.

Saber deixar as coisas seguirem seu fluxo, entendê-lo, e buscar sintonia com ele é algo que parece ir de encontro (se chocar, portanto) ao pensamento que nos habituamos a chamar de Ocidental (tratamos um pouco disto, aqui).

Ocidental ou não, já que estas características distintivas (oriente/ocidente) se mostram há muito tempo misturadas e com influências recíprocas, tendemos a querer permanecer o maior tempo possível em situações de conforto, que nos causem bem e que as situações contrárias sejam mais breves e passageiras.

Podemos pensar que um bom modo de ver esta dialética própria da vida seria tentar nos manter em constante reflexão sobre o quanto, de fato, as coisas estão em constante transformação e que, para nos mantermos íntegros e mais satisfeitos, a busca por um eixo interno que seja flexível o bastante para se transformar junto ao nosso entorno é uma atitude bastante recomendável.

Entender, talvez, que “equilíbrio” não seja algo estático, uma ausência de movimento ou tensão, mas um balanço mutável e ajustável entre constantes opostos que se apresentam a nós.

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*No caso aqui: concepção que remonta ao eleatismo grego, segundo a qual a realidade é constituída por um princípio único, um fundamento elementar, sendo os múltiplos seres redutíveis em última instância a essa unidade (Dic. Oxford).

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