Pensamento em movimento – I

Já foi apontada por muitos a relação entre o ato de andar e a reflexão, ou simplesmente, pensar.

Escolas filosóficas, pesquisas neurológicas ou a simples observação prática mesmo, muitas vezes indiretamente embutidas em frases do tipo: “Ando pensando em…” ou em certa oposição, “Vou parar pra pensar”. Mas, na maioria das vezes a afirmação é de que andar nos ajuda a pensar.

Temos o exemplo de Aristóteles e seus peripatéticos – segundo alguns, seus seguidores eram assim chamados devido ao pensador ter fundado sua escola em um “passeio público” (peripaton) no Liceu em Atenas e que andavam pra cima e pra baixo trabalhando suas reflexões em conjunto com os discípulos, daí Peripatetikós, quer dizer, “aquele que anda ao redor” – até nossos dias atuais.

…No momento em que começo a mover minhas pernas, meus pensamentos começam a fluir”, escreveu certa vez Thoureau (Henry David, o escritor e naturalista) referindo-se ao efeito do movimento do corpo somado à exposição a uma brisa fresca teria sobre seus exercícios de pensar. E não estão sozinhos.

Pesquisas importantes também revelam a conexão entre o pensar, principalmente o pensar criativo, e a atividade de sair caminhando, relacionando esta a mudanças cognitivas bastante notáveis. Talvez devido a um certo relaxamento de centros de controle que nos manteriam presos a ideias fixas, já que além mudança de atenção há, de fato, um desvio da circulação sanguínea para outras áreas do corpo.

Um estudo realizado na Universidade Stanford (por Marily Oppezzo e Daniel Schwartz), por exemplo, aponta um acréscimo de até 60% na estimulação do pensamento criativo ao solicitarem a participantes que buscassem usos alternativos para objetos comuns e respostas alternativas a questões dadas.

Aqui, me aprece interessante um pequeno que recuo para nos questionarmos, afinal do que estamos falando quando falamos “pensar melhor”? Não me parece que Aristóteles ou os pesquisadores acima buscavam formas de pensar mais rápidas, por exemplo, cujo objetivo fosse simplesmente nos tornarmos mais produtivos.

Arriscaria dizer até que existe uma relação entre pensar melhor e justamente sair de um ritmo de respostas imediatas a estímulos urgentes. Acredito que pensar diferente seria uma resposta mais adequada.

Pensar melhor seria pensar de modo diferente em relação a algo, normalmente um problema ou dúvida quando algum impasse se estabelece. Quero dizer, se o pensamento se apresenta satisfatório como está, porque pensá-lo de outro jeito.

O estudo acima, ainda não é capaz de apontar exatamente quais processos internos estão diretamente envolvidos nos resultados, mas parece não haver dúvida em relação aos efeitos.

De forma simbólica poderíamos dizer que o movimento é ao mesmo tempo criador e indício de saúde, tanto a dos corpos que se movimentam adequadamente quanto do pensamento que deve prosseguir sempre se autoquestionando. Provavelmente Aristóteles concordaria.

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