Redes sociais: engajamento ou vício?

redes sociais

Talvez você faça parte daquele seleto grupo de seres que conseguem se manter totalmente fora das redes sociais ou mesmo que fazem parte, possuem perfil de inscrição, mas não utilizam estas plataformas.

O fato é que existem, para os que utilizam, diversos níveis de frequência e, muitas vezes, de intensidade. Para alguns, inclusive, devido a fatores profissionais (meu caso), seria praticamente impossível, ao menos neste momento, abrir mão da utilização destas redes.

Se, por um lado, a promessa de ampliação da rede de relacionamentos (conhecer pessoas de outras localidades com assuntos em comum), reencontro com pessoas importantes do passado, além de, como dito acima, abertura ou ampliação das possibilidades profissionais, pode sim estar se realizando, por outro e devido a uma série de fatores, muitos sentem os efeitos colaterais relacionados à participação nestes ambientes.

Nenhum criador ou gerenciador destas redes é capaz de negar a profunda utilização de conhecimentos sobre a psicologia humana no intuito de gerar renda a partir de sua presença e participação nelas, ou seja, seu “engajamento”, quer dizer, seu tempo.

Talvez “engajamento”, em muitos casos, seja apenas um eufemismo para vício pois, de fato, para muitos, a utilização diária de seus Smartphones, tem características muito próximas da adicção.

Se, como dito acima, existem características positivas relacionadas às redes e sua utilização, é preciso reconhecer também, seja para abandoná-las (como defende Jaron Lanier), seja para recalibrar o seu uso para um modo mais saudável e menos dependente, que seus milionários donos e desenvolvedores não poupam esforços para tentar nos manter conectados e ativos nestas redes.

A rigor, somos trabalhadores, funcionários destas redes (alguns, inclusive, até ganham pra isso). Produzimos conteúdos: vídeos, fotos, textos, comentários, hashtags obtendo como moeda de troca pequenas doses de substâncias químicas ativadas em nós a cada nova curtida.

Toda estrutura, interface e os invisíveis algoritmos são direcionados a nos manterem conectados, ativos, produzindo conteúdo, comentando o de outros, cada vez mais e mais.

Sem contar a pressão social ou a cobrança pessoal mesmo, que se manifesta muitas vezes na forma de patologias como a ansiedade (veja a F.O.M.O., por exemplo, já comentado aqui) ou mesmo a depressão, também já apontada em diversos estudos sérios, relacionada à sensação de que a vida de todos é maravilhosamente melhor que a sua.

Segundo estimativas, mais de 3 bilhões de imagens são compartilhadas diariamente e o brasileiro, um dos maiores usuários do mundo, passa em média algo em torno de 4,8 horas por dia com os olhos colados nestas telinhas (estudos alternativos informam quase o dobro deste tempo).

Liberdade real?

A questão deixa de ser algo exótico e, sem exageros, podemos afirmar que já caracteriza uma espécie de pandemia, gerando diversos problemas novos para a saúde mental e a vida social de diversas pessoas.

Alguns, como o já apontado acima Jaron Lanier, autor do “Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais” (Editora Intrínseca), vai mais adiante, considerando o problema da “falta de autonomia” insolúvel, propondo mesmo, como sugere o título de seu livro, o abandono total destas práticas.

Como permanecer independente em um mundo onde você está sob vigilância contínua e é constantemente estimulado por algoritmos operados por algumas das corporações mais ricas da história, cuja única forma de ganhar dinheiro é manipulando o seu comportamento?

Ele mesmo tenta ser exemplo de como viver e viabilizar suas demandas profissionais, entre outras, estando fora deste circuito, muito embora, ele mesmo reconheça a dificuldade em se tomar tal atitude.

Lanier é um dos pioneiros no mundo da Internet e Realidade Virtual e, hoje, grande crítico da utilização deste tipo de tecnologia chegando mesmo a declarar que se mantém longe delas pelo mesmo motivo que se mantém longe das drogas. Ele nos compara a ratos de laboratório, trabalhando e fornecendo feedback em troca de shots de substâncias que nos deixam temporariamente felizes.

Mesmo que para alguns pareça uma opinião um tanto exagerada, fica cada vez mais difícil não termos conhecimento de alguém próximo ao qual este tipo de análise e problema se aplica. Se não formos nós mesmos, todos conhecemos pessoas que parecem entrar em pânico ao serem afastadas de seus smartphones.

Como em todo vício, a solução parece necessariamente passar pelo momento da conscientização em relação ao problema. Se achamos que está tudo certo, não há razão para mudar. Muitos pensam assim e atribuem a outras causas ou mesmo desculpas os problemas referentes ao uso excessivo destes gadgets e das redes sociais como um todo.

A pressão social somada a gratificação química incontestável torna imensamente difícil a tarefa de sanar o problema, quando este existe, claro.

É preciso reconhecer o fato de que existe todo um esforço consciente (amplamente reconhecido pelos multimilionários criadores destas redes) para que você amplie este seu tempo de presença e produção.

Não é um efeito colateral negativo surgido dentro de atitudes bem-intencionadas, mas algo deliberadamente desenvolvido para gerar lucro, independente das consequências psicossociais que possam advir de seu uso descontrolado.

Nossos dados, preferências, costumes, posturas político-ideológicas são coletados, armazenados, cruzados com outros tantos dados, retroalimentando um sistema dinâmico, quer dizer, em constante transformação e adaptação no sentido de aumentar o que aqui estou chamando de vício; e, ao mesmo tempo gerando informações que muitas vezes são vendidas, definindo hábitos de consumo e até mesmo o resultado de eleições públicas.

O que fazer?

Talvez, o modo de pensar minimalista se encaixe muito na resolução, ou ao menos na redução de danos relacionados ao problema aqui apontado.

Questionamentos como:

  • Quanto tempo passei hoje conectado ou descendo e subindo timelines com o dedo na tela de meu smartphone?
  • Quanto deste tempo me trouxe, de fato, algo novo e positivo?
  • Quanto deste tempo eu passei tentando angariar likes e me frustrando quando não o conseguia?
  • Poderia reduzir este tempo e trocar por outras atividades que envolvam um contato mais direto com o mundo e outros seres humanos?

    Podem ser o início do reconhecimento de um problema e do caminho para sua solução.
    Um uso mais funcional e racional destes aparelhos e das redes sociais.

Mais sobre estes e outros assuntos relacionados?
Visite e se inscreva no Canal Mente Minimalista, no YouTube.

Comentários

Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on telegram
Share on pinterest